Um país capturado!

Como é que nos tornámos nisto? A questão é tão simples quanto essa.


Como é que nos tornámos nisto? – Um mar de corrupção, onde a vitória sorri sempre ou quase sempre aos chico-espertos. Como é que nos tornámos nisto? – Uma imensidão de compadrio, onde as portas se abrem sempre ou quase sempre aos filhos dos papás com o sobrenome mais vincado. Como é que nos tornámos nisto? – Uma amálgama de jogos podres de poder, de jogatanas de baixo nível, de intrigas palacianas e de conluios pérfidos, onde os vencedores são sempre ou quase sempre decididos de antemão pelos mesmos de sempre e para os mesmos de sempre.


Mas, sejamos mais claros.


O que é que aconteceu aos herdeiros de Viriato, que hoje baixam a cabeça perante aqueles a quem deveriam fazer frente? O que é que aconteceu aos descendentes do Infante D. Henrique, que hoje têm medo de olhar para lá do horizonte? O que é que aconteceu aos sucessores de Fernão de Magalhães, que hoje se deixam aprisionar num mundo que os seus antepassados ousaram percorrer? O que é que aconteceu aos émulos de Martim Moniz, que hoje se vergam perante aqueles que deveriam combater? O que é que aconteceu aos legatários de Aristides de Sousa Mendes, que hoje obedecem por conveniência quando deveriam desobedecer por consciência?   


Claramente, não é este o Portugal que sonhámos, nem o Portugal que desejamos, nem o Portugal que queremos deixar a quem nos segue no tempo. Não é este o Portugal que nos prometeram, nem o Portugal para o qual trabalhamos, nem o Portugal que queremos continuar a construir. Não é este o Portugal que encontramos no orgulho templário, nem na bravura dos Descobrimentos, nem no sonho do Poema Épico, nem na determinação do Império Ultramarino, nem na resiliência da Diáspora.


Temos, com lamento, nas nossas mãos cada vez mais vazias, um “novo” Portugal, com “novos” valores, com uma “nova” mentalidade, com um “novo” olhar para o mundo, cheio de “novos” portugueses, que nos trazem “novos” hábitos, através de uma “nova” imigração, fruto de um “novo” multiculturalismo e que promete “novos” amanhãs. Que cantam. Dizem eles, sábios e certos nas suas certezas, que parecem ser cada vez mais deles e só deles e muito menos nossas.


E nesse “novo” Portugal temos a imparável ascensão dos idiotas, que proclamam a Liberdade ao mesmo tempo que defendem o assassinato de nascituros. Temos a frenética festa dos hipócritas, que abraçam as árvores ao mesmo tempo que amparam regimes que apedrejam as mulheres que mostram o seu cabelo e vendem para casamento crianças de seis anos a predadores sexuais que se escudam atrás de uma religião que não passa de uma doença mental. Temos a delirante dança das aberrações, que celebram o Amor nas suas “muitas formas” ao mesmo tempo que procuram silenciar com desesperante precisão pidesca todos aqueles que recusam negar a evidência da Ordem Natural das coisas, a centralidade da Família Natural, a santidade da Vida Humana e a dignidade do legado civilizacional que recebemos da Ética Grega, da Jurisprudência Romana e da Fé Judaica.


Temos também um regime capturado por interesses obscuros, que se movem longe do escrutínio dos que pagam as contas. Temos os Senhores dos Dossiers, que os coleccionaram ao longo de trinta anos e que habilmente os usam para chegar onde chegaram e lá se manterem contra todas as marés. Temos um centrão decadente acolitado pela Esquerda arrogante e inebriada em vapores de superioridade moral. Temos um poder que confunde o Estado com propriedade privada, a impunidade com um direito adquirido e o silêncio dos portugueses com uma licença para continuar a servir-se do país.


Para esta gente, Portugal deixou de ser orgulho e tornou-se vergonha. A bandeira deixou de ser união e tornou-se embaraço. A língua deixou de ser património e tornou-se descartável. A Portugalidade deixou de ser pertença e tornou-se suspeita. A História deixou de ser conhecimento e tornou-se acusação. A Memória e aqueles que nela deixaram o seu nome deixaram de ser referência e tornaram-se réus. E o presente, que, tal como o futuro, tinha tudo para ser forte, digno, feliz e próspero, tornou-se um emaranhado lamentável de pobreza, resignação, dependência e desencanto.


É aqui que estamos.


E é aqui que encontramos a nacionalidade a ser vendida à forma e ao preço de quem vende uma camisa num qualquer boteco do Bangladesh. É aqui que encontramos activos estratégicos que nos tornam grandes, mas que são vendidos por quem governa como se o país estivesse em liquidação. É aqui que encontramos parcerias seculares, forjadas no sangue e no trabalho, mas que são sacrificadas à conveniência de ocasião e à miopia de quem confunde diplomacia com subserviência. É aqui que encontramos uma plataforma continental vasta e cheia de recursos, mas que permanece à margem de uma estratégia nacional capaz de transformá-la em prosperidade. É aqui que encontramos um Atlântico tão nosso e pautado por dois povos autonómicos, mas que continua a ser pensado por quem vê as ilhas como um encargo e não compreende a dimensão de Portugal.


A escolha que somos chamados a fazer é se queremos continuar nesta casa sem Alma, sem Vida e sem Raça. Se queremos continuar nesta deriva sem Norte, sem Fé e sem respeito pela nossa História. Se queremos continuar nesta decadência sem Honra, sem Coragem e sem Esperança. Se queremos continuar a alimentar os pequenos donos disto tudo. Se queremos continuar a sustentar os privilégios de quem vive à custa do nosso esforço. Se queremos continuar a premiar os que fizeram da política um negócio. Se queremos continuar a enriquecer os que empobrecem Portugal.


Porque esta estrada cansativa já vai longa e porque não acredito que tenhamos, à nossa frente, mais cinquenta anos para desperdiçar, esbanjar e hipotecar, sonho e peço que deixemos de nos embalar nos cantos da resignação. Sonho e peço que abandonemos o engodo anestesiante da prudência. Sonho e peço que tenhamos a bravura de romper com o que nos aprisiona. Sonho e peço que tenhamos a dignidade de não deixar aos nossos filhos um país menor. Afinal, nenhum povo está condenado a sobreviver amarrado à sua decadência. E é exactamente por isso que cada vez faz mais sentido a IV República. Que chegue depressa.