Privacidade neural: quem vai ser dono dos teus pensamentos
Recentemente, em julho, a China, em Xangai, implantou o primeiro chip cerebral comercial, da Neuracle, num ser humano. O paciente era um homem com paralisia, e o objetivo era o seguinte: converter pensamentos, ou sinais cerebrais, em comandos digitais para um computador. Um exemplo simples seria, ao pensar em mover a mão, um sinal seria interpretado pelo chip neural, e o computador, ou máquina semelhante executaria a ação pretendida. O objetivo em si foi executado com sucesso.
Apesar da notícia ser, aos olhos de muitos como algo positivo, por exemplo, para o aumento da independência de pacientes com problemas semelhantes, para mim é uma questão muito mais profunda, e que, no meu entender, merece uma reflexão. Esta notícia pode vir a ser o início de dois processos que já foram observados diversas vezes:
O primeiro processo é a lógica das tecnologias disruptivas: sempre que surge um novo tipo de tecnologia que promete resolver um problema comum, como a World Wide Web (ou internet), o GPS, os smartphones, e mais recentemente a Inteligência Artificial, acabamos por tornar essas mesmas tecnologias parte do nosso quotidiano, tornando-as mais baratas, mais presentes e acessíveis.
O outro processo não é visível a todos, e só se apercebe quem começa a interligar os pontos: o controlo das tecnologias pelos governos. Tendo em conta que, pelos testes apresentados até agora, pensamentos podem ser transformados em comandos digitais, devíamos questionar “até onde pode chegar?” Controlar computadores sem as mãos? Escrever com os comandos inseridos no chip e enviados à máquina? Interagir com uma IA de forma quase direta?
Existem várias perguntas para tal, mas as questões fundamentais aqui são: E se os governos se apoderarem desta tecnologia completamente diferente de todas as outras? Seria utilizada para controlar as pessoas? O governo passaria a ser dono dos teus pensamentos? A exposição dos teus dados neurais seria uma desculpa para a “estabilidade” e “segurança coletiva”?
Podem achar que isto é um exagero, mas já assistimos a vários exemplos em que os governos, ao tomarem conta dos meios tecnológicos, os usaram para controlar e definir as linhas de pensamento das sociedades. Um exemplo claro, que foi bastante debatido em julho, foi o Chat Control, que simplesmente quer acabar com qualquer tipo de oposição ao discurso sócio-histórico completamente desconectado da União Europeia, com a realidade dos factos.
Talvez, e concluindo o meu ponto de vista, a próxima revolução tecnológica não seja resolver um problema restrito a pessoas com problemas de paralisia, entre outros, mas sim acabar com a última fronteira que nos define enquanto pessoas individuais: a nossa própria mente.