Francisco Gomes repõe a verdade em entrevista exclusiva ao 'O Observador'

Francisco Gomes repõe a verdade em entrevista exclusiva ao 'O Observador'

Na sequência da notícia caluniosa e repleta de inverdades publicada pela revista 'Sábado', cujo conteúdo foi posteriormente replicado, de forma acrítica e falaciosa, por vários órgãos de comunicação social, o deputado Francisco Gomes repõe a verdade, esclarece os factos e desmonta as falsidades que têm sido difundidas a seu respeito, numa entrevista exclusiva concedida ao 'O Observador', nomeadamente à jornalista Inês Figueiredo.


Os documentos a que 'O Observador' teve acesso também confirmam a realização da licenciatura, com média final de 19 valores, do mestrado, com média final de 18 valores, e do doutoramento, com classificação final de 'Excelente', bem como a distinção 'Cum Laude', que é a honra académica mais elevada que é possível conceder a uma tese de doutoramento.


A entrevista, que se reproduz integralmente abaixo, permite conhecer os factos pela voz do próprio deputado e evidencia a campanha de perseguição política e mediática de que Francisco Gomes tem sido alvo, precisamente por estar a afrontar interesses instalados, a denunciar práticas que durante demasiado tempo permaneceram intocáveis e a mexer com um sistema que não está habituado a ser confrontado.


O que é que o levou a ir estudar para os EUA?


Começou tudo em 1997, com o desejo de construir, com trabalho, honestidade e empenho, uma vida digna. Cresci numa ilha, com a linha do mar sempre nos olhos. Era, e sou, filho de pais que tudo fizeram para transmitir a mim e à minha irmã a noção de que o trabalho é a única via para chegarmos onde queremos na vida. Não o sobrenome, porque não o tenho, não a herança de família, porque não a temos, mas o trabalho.


Ciente disso, o jovem de 17 anos que eu era quando tudo começou olhava para os EUA como a terra das oportunidades. Era a terra de Ronald Reagan, de Michael Jordan, de Magic Johnson, de Joe Montana e de tantos outros que, fruto do seu trabalho e dedicação, tinham construído um nome e se tornado lendas. Era lá que eu queria estar, porque acreditava que, se trabalhasse muito e me dedicasse, também poderia construir o meu próprio caminho.


Quando acabei o secundário na Escola da APEL, com média de 19,2 valores, senti que tinha conquistado, por mérito académico, a possibilidade de dar esse passo. Candidatei-me a bolsas de estudo na Madeira, em Portugal e no estrangeiro e obtive apoios de diferentes instituições, atribuídos em função do meu percurso e dos resultados académicos alcançados. 


Não fui, naturalmente, um caso único. Como eu, muitos outros jovens madeirenses têm beneficiado, ao longo dos anos, de bolsas e apoios que lhes permitiram estudar fora da Região e procurar oportunidades que, de outra forma, dificilmente estariam ao seu alcance. Foi também graças a esses apoios, conjugados com o esforço da minha família, que a entrada na Universidade de Denison se tornou possível.


Diz no currículo publicado no site da Assembleia da República que a sua licenciatura em Ciência Política foi conseguida nas universidades de Denison e Harvard. Como é que sucedeu? Qual a universidade principal e como fez as restantes cadeiras na outra? 


A Universidade de Denison foi a minha universidade principal e aquela onde desenvolvi a parte fundamental do meu percurso académico. Harvard surgiu por recomendação do meu conselheiro académico em Denison, que, perante os resultados que vinha alcançando e as classificações que tinha, entendeu que eu reunia condições para frequentar unidades curriculares naquela universidade durante o período de verão. Foi uma oportunidade que resultou do trabalho que vinha fazendo e do mérito académico que tinha estava a demonstrar.


Na prática, passava o ano académico, de agosto a maio, em Denison e, durante o período de verão, em vez de regressar a casa para passar férias, ia para Harvard fazer unidades curriculares. Durante aqueles anos, passei, portanto, grande parte do ano a estudar. Era exigente e implicava abdicar de muitas coisas, mas encarava esse esforço como um investimento no meu futuro. 


Sabia de onde vinha, sabia o esforço que a minha família tinha feito e tinha plena consciência de que aquelas eram oportunidades que tinha conquistado pelo meu trabalho e pelos meus resultados. Por isso, sentia que não tinha o direito de as desperdiçar em troca de conforto.


O diploma final reúne precisamente esse percurso académico, integrando o trabalho realizado nas duas universidades e as unidades curriculares concluídas em Harvard, no âmbito da formação que desenvolvi a partir de Denison. 


Nunca encarei Harvard como um elemento de estatuto ou como algo que me tivesse sido oferecido. Encarei-a como mais uma oportunidade que o meu desempenho académico me permitiu alcançar e à qual procurei responder da única forma que conhecia e conheço, isto é, trabalhando ainda mais. Para mim, o mérito só tem verdadeiro significado quando vem acompanhado de esforço, disciplina e da responsabilidade de aproveitar aquilo que conseguimos conquistar.


Quantas cadeiras foram feitas em Harvard e com que valores?


Foram quatro unidades curriculares, todas concluídas com classificação de 4.0, equivalente a 20 valores. Foram escolhidas por aconselhamento do meu conselheiro académico, tendo em conta o percurso que estava a desenvolver em Denison, os meus resultados e a forma como poderiam complementar a minha formação. Três delas ficaram integradas no processo de certificação do governo português e da Comissão Fulbright, enquanto a quarta, por ser uma unidade curricular articulada com a universidade de origem, foi creditada de forma integrada no meu registo académico global.


Como expliquei, fazia essas cadeiras durante o verão, depois de passar o ano académico, entre agosto e maio, em Denison. Significava, na prática, abdicar das férias e continuar a estudar, porque entendia que aquela era uma oportunidade que não devia desperdiçar.


Se alguém considera que fazer cadeiras em Harvard é pouco, respeito inteiramente essa opinião. O melhor conselho que posso dar é que se candidate, seja aceite, faça as cadeiras e tente obter 20 valores. Eu fiz o meu percurso dessa forma, com trabalho e exigência, e é dele que tenho de prestar contas.


O diploma final é conjunto entre as duas universidades? Com que nota terminou o curso?


O diploma final reúne o percurso académico realizado nas duas universidades, integrando o trabalho desenvolvido em Denison, que foi a minha universidade principal, e as várias unidades curriculares que frequentei e concluí em Harvard, durante os períodos de verão. No final, terminei o curso com a classificação de 19,3 valores.


Todo este percurso académico está reconhecido e certificado em Portugal pelo então Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, pela Direção-Geral do Ensino Superior e pela Comissão Fulbright, que é uma instituição binacional criada por Portugal e pelos Estados Unidos para promover e acompanhar o intercâmbio académico e científico entre os dois países.


Toda esta certificação reconhece o percurso realizado, as unidades curriculares concluídas e a respetiva equivalência no sistema de ensino superior português, demonstrando que foi um percurso exigente, construído entre Denison e Harvard, e assente, desde o primeiro momento, no trabalho, no mérito académico e na vontade de aproveitar plenamente as oportunidades que fui conquistando. Nada me foi oferecido, nem facilitado. Foi conquistado a pulso – e eu tenho muito orgulho nisso. 


No currículo que surge no site do grupo parlamentar do CHEGA aparece como "Licenciado em Ciência Política e em Comunicação Social". É apenas uma licenciatura, certo? Qual a razão para estarem referidas as duas áreas? 


Sim, trata-se de uma licenciatura. O sistema universitário norte-americano permite, contudo, que o estudante estruture o seu percurso académico com formação aprofundada em duas áreas distintas. No meu caso, optei por Ciência Política e Comunicação Social, razão pela qual ambas surgem referidas no meu currículo. As duas áreas que integram o meu percurso académico estão, aliás, devidamente reconhecidas e certificadas institucionalmente em Portugal, pelo que não se trata apenas da forma como apresento a minha formação no currículo, mas é uma verdade real e factual.


A escolha por estas áreas foi consciente, pois considero que são duas áreas que se complementam particularmente bem. A Ciência Política permite compreender as instituições, os sistemas políticos, as relações de poder e os processos de decisão, ao passo que a Comunicação permite compreender a forma como as ideias são transmitidas, debatidas e percecionadas pela sociedade. Entendi, por isso, que estudar as duas áreas proporcionaria uma formação mais completa, transversal e útil para o que entendia poder ser o meu futuro.


Como é claro, isto tornou o percurso academicamente mais exigente, porque implicou cumprir os requisitos curriculares correspondentes às duas áreas de formação. Mas essa exigência fazia parte da forma como sempre encarei os estudos e como encaro a minha vida hoje em dia. Se tinha a oportunidade de aprender mais, trabalhar mais e alargar a minha formação, entendia que devia aproveitá-la, até por respeito para com os sacrifícios dos meus pais, que muito lutaram para que eu pudesse estudar naquele país.


Tem os diplomas da licenciatura, mestrado e doutoramento para comprovar os estudos e, se considerar que faz sentido, as notas?


Sim, naturalmente. Tenho os diplomas e toda a documentação comprovativa da licenciatura, do mestrado e do doutoramento, estando todo o percurso devidamente reconhecido em Portugal e certificado institucionalmente pelas entidades competentes. Aliás, toda essa documentação foi partilhada com este órgão de comunicação social no âmbito desta mesma entrevista. Por isos, não há nada a esconder - como nunca houve! 


A licenciatura foi concluída com uma classificação final de 19,3 valores, o mestrado na Universidade de Oxford com média equivalente a 18 valores e o doutoramento na Universidade de Cádis com a classificação de “Sobresaliente”, equivalente a Excelente, bem como a distinção “cum laude”, que corresponde à mais elevada menção de honra académica atribuída a uma tese de doutoramento.


Tenho igualmente documentação relativa à restante formação que fui realizando, incluindo o Curso de Defesa Nacional, no Instituto da Defesa Nacional, uma pós-graduação em Guerra de Informação, na Academia Militar, e um curso de Língua Russa, na Universidade Estatal de Moscovo.


Em suma, sempre encarei a vida como um processo de aprendizagem permanente e procurei, sempre que as responsabilidades profissionais o permitiram, conciliar o trabalho com a formação académica. Nunca considerei que a aprendizagem terminasse com a obtenção de um diploma, mas, muito pelo contrário, procurei continuar a estudar, a aprofundar conhecimentos e a complementar a experiência profissional com formação em áreas que considerei importantes para o meu percurso, para a Região e para o país.


Escreveu que foi colocado na Faculdade de Medicina do Porto, mas que o gosto pelo basquetebol o levou até aos EUA. Porque decidiu trocar a medicina pela ciência política?


Sim, é verdade, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que funciona junto ao Hospital de São João. Candidatei-me, fui aceite, mas acabei por não ingressar. Foi uma decisão muito pensada, porque tinha, e continuo a ter, uma enorme admiração pela Medicina. Tenho, aliás, o orgulho de ter uma irmã médica, formada naquela universidade, e sei bem a responsabilidade, a entrega e a humanidade que essa profissão exige. 


Mas também percebi, muito cedo, que aquilo que verdadeiramente me fascinava era a possibilidade de transformar a sociedade. Sempre acreditei, e continuo a acreditar, que a política, quando é exercida com seriedade, frontalidade e sentido de missão, é uma das formas mais poderosas de melhorar a vida das pessoas. Francisco Sá Carneiro é, a esse nível, uma referência pessoal, precisamente porque representa para mim uma determinada maneira de estar na política, feita de convicções, coragem, independência e da ideia de que o exercício do poder só faz sentido quando está ao serviço das pessoas e do país. 


Já o basquetebol ajudou a alimentar o sonho de ir para os Estados Unidos, mas não foi ele que me fez escolher Ciência Política. Nos EUA tive a oportunidade de perceber que queria compreender melhor como funcionavam os Estados, as instituições, a economia e as sociedades e, sobretudo, de que forma as decisões políticas podiam mudar o destino de uma comunidade ou de um país. Foi isso que acabou por determinar a minha escolha.


Não deixei a Medicina por lhe reconhecer menor importância. Escolhi a Ciência Política porque percebi que era aí que estava a minha verdadeira vocação e porque acreditava, como ainda acredito, que, através da política, poderia um dia dar o meu contributo para deixar à minha filha e aos filhos e filhas de tantos outros portugueses um país melhor do que aquele que recebemos.


Apesar do muito veneno que tenho encontrado pelo caminho, é ainda essa crença que me orienta e que me dá força para continuar a lutar por um Portugal melhor, por uma Madeira digna e por todos aqueles que sonham construir uma vida próspera e livre do amiguismo, da corrupção, do compadrio e da política baixa que durante demasiado tempo tem amarrado o nosso desenvolvimento.


Tendo em conta que considerou uma "mentira" aquilo que foi publicado relativamente ao seu currículo, de acordo com a sua publicação nas redes sociais, tenciona avançar com algum processo para a justiça?


Sim. Já solicitei a um advogado da minha confiança que me apoie na análise da situação e na preparação do respetivo processo. Para que fique bem claro, não me incomoda que me ataquem politicamente. Estou na vida pública e aceito a crítica, mesmo quando é dura. O que não admito é a calúnia, a perseguição ou o ataque sistemático à minha honra e ao meu carácter.


Não sei quais são as motivações que estão por detrás desta atuação, nem farei acusações que não possa provar. Mas admito, naturalmente, a possibilidade de o jornalista estar a agir por iniciativa de terceiros que estão incomodados com alguns dos temas que tenho levantado e com situações que tenho vindo a denunciar e a expor publicamente. Se assim é ou não, caberá às instâncias próprias apurar.


Tenho duas linhas que considero que não devem ser ultrapassadas. Uma, é o meu percurso académico, que construí com muitos anos de trabalho e sacrifício. A outra é a minha família. Na minha perspetiva, este jornalista já procurou atingir ambas. A partir daí, deixa de estar em causa apenas o combate político ou o escrutínio jornalístico e passa a estar em causa o meu direito ao bom nome, à honra e à proteção da minha família.


Por isso, desta vez, entendi que devo recorrer aos meios legais ao meu dispor. A crítica faz parte da democracia. A mentira e a tentativa de destruir pessoalmente alguém não são crítica, mas canalhice, e, isso, não pode ser admitido.